O mito da militante gorda que não tolera o emagrecimento alheio

24 de abril, por Mariana Rodrigues

Quando me assumi como militante gorda, comecei a prestar mais atenção nas coisas que eu falo, principalmente na internet. Qualquer palavra ou frase mal colocada pode causar uma interpretação errônea de quem lê ou ouve, e, se tem uma coisa ruim para quem quer e precisa provar um ponto, é perder credibilidade. Vejo muita gente falando que o ativismo gordo não perdoa, mas essa fala vem sempre antes de se revelar um propósito: o emagrecimento.

Veja bem, emagrecer não é um erro. Tudo bem querer emagrecer, juro. Você é dona do seu corpo, pode fazer o que bem entender com ele. Não está mais se achando linda quando se vê no espelho? Uma pena, mas pode ir fundo. Não consegue arrumar emprego e sucumbiu ao sistema? Justo. Quer entrar na roupa de marca famosinha? Ok. Eu não acredito que estes sejam motivos para desejar enfrentar um processo de emagrecimento – que por muitas vezes é fisicamente e mentalmente doloroso -, e é por isso que eu não emagreço. Mas você pode, se quiser.

Mas nunca é por isso que eu vejo a maioria das mulheres gordas anunciarem que decidiram emagrecer. O motivo é sempre a saúde. Obviamente a mais justificável das razões, mesmo vinda de mulheres que sabem que problemas de saúde têm mais a ver com sedentarismo e má alimentação que com o formato do corpo em si. Tanto que muitos médicos passam remédios para “auxiliar” no processo de emagrecimento.

Para mim, desserviço mesmo dentro da militância é a necessidade de se explicar. Porque sempre -sempre!- a emenda sai pior que o soneto. No afã de não deixar parecer que você está emagrecendo porque quer (e convenhamos, na maioria das vezes essa é a razão), surgem falas gordofóbicas no discurso, e aí, amiga, você realmente tá queimada no rolê. Mas não porque decidiu emagrecer, e sim porque está mentindo ou justificando seu emagrecimento com fundamentos gordofóbicos.

Junto com as milhões de defesas, vem também as fotos de pratos de salada, na frente do espelho na academia, e, claro, os textões atestando as alegrias de emagrecer e ser mais saudável, e daí para as famigeradas fotos de “antes e depois” é um pulo.

Volta e meia bato na tecla de que ninguém tem o direito de opinar sobre o corpo de outra pessoa. Da mesma maneira que não há a necessidade de anunciar que começou um processo de emagrecimento, porque ninguém tem nada a ver com isso. Só é impossível se expor por algo contraditório ao que se prega, e, quando alguém aponta a incoerência no discurso – e é sempre alguém do ativismo -, dizer que a militância não aceita o emagrecimento alheio.

 

 

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Noiva, tá na hora de aceitar que o mundo não gira ao seu redor

20 de abril, por Mariana Rodrigues

Imersa no mundo das noivas desde 2014, quando fui pedida em casamento, tenho me chocado cada vez mais com tudo o que tenho visto em conversas sobre festas e celebrações de casamento. Para quem sempre sonhou com uma festa perfeita, e mesmo para quem passou a sonhar após o pedido, a organização da festa e dos detalhes é um período de sentimentos mistos. Alegria, frustração e estresse são os mais comuns por aqui, e nem sempre quem está de fora de tudo isso vai entender ou dimensionar essas situações. É nesse ponto que eu queria chegar.

No meu grupo de amigas, tenho somente mais uma que está na mesma vibe que eu, e estamos sempre trocando figurinhas sobre buffets, decorações e lembrancinhas, além das discussões com nossos noivos, preocupações com eventuais estouros de orçamento, coisas que somente quem está passando sabe o que é.

Vejo muitas mulheres reclamando pela amiga que não quer ir à feira de casamentos, pela mãe que acha exagero ou a prima que diz que “tá aqui para o que for preciso”, mas desaparece quando começamos a nos lamentar e falar sem parar sobre preços de forminhas, cores de sousplat e sabores de bolo. Gente, precisamos entender que, na maioria das vezes, esse assunto é uma chatice para quem não está envolvido na festa. Se chatear por isso é um gasto de energia e tempo, e olha que essas duas coisas geralmente são escassas para quem está planejando uma festa de casamento.

Tem também aquelas noivas que exigem das madrinhas cor e modelo específico de vestido e vão esbravejar na internet quando uma das madrinhas explica que não se sente confortável com aquele vestido. Já falei sobre relação entre noivas e madrinhas neste post aqui, mas, fico assustada quando leio frases como “se ela não quiser, troque de madrinha” ou “seu casamento, suas regras”. Tem noiva que fica tão autocentrada que chega a falar “se a minha madrinha tem consideração por mim, com certeza vai ceder aos meus pedidos” – obviamente que nessa altura o ego da noiva está tão grande que ela já ultrapassou todos os limites, mas parece não ter se dado conta disso.

Além disso, vejo mulheres reclamando dos próprios convidados. Algumas dizem que seus convidados vão “encher a barriga e sair falando mal da festa”, além das reclamações por não terem ganho presentes, afinal “estão investindo muito dinheiro na festa e precisam ter um retorno”, e, aparentemente não dar presente significa não ter consideração. Fico imaginando se essas pessoas se ouvem ou se lêem ao falar essas coisas. Qual a razão de convidar para o seu casamento gente que só tá interessada em comer, e não em comemorar com você e seu noivo? Sem contar que estar presente em um casamento muitas vezes custa caro. Uma roupa nova, aquela ida ao salão, o deslocamento… Às vezes não dá para comprarem presente, e tudo bem, porque por muitas vezes a pessoa está se esforçando para estar ali com vocês, e isso deveria bastar.

“Ai, mas o casamento é meu, eu faço do jeito que eu quiser”

“Ser noiva é muito mais que ser uma top diva”

Bom, você não casa sozinha, já começa por aí. A participação do noivo deveria ser importante, envolvê-lo nos preparativos e deixá-lo responsável por tomar algumas decisões é importante, demonstra parceria. Além do mais, uma festa precisa ser, além de agradável para os anfitriões, divertida para os convidados. Senão é mais fácil viajar com o boy e fazerem um elopement wedding (aqueles casamentos que só contam com o casal, um celebrante e o fotógrafo). Qual é a razão de fazer uma festa pensando só na sua diversão?

É verdade que todo mundo gosta de se sentir importante, e o casamento nos proporciona isso. Mas precisamos sempre lembrar qual é a razão  para esta comemoração, e principalmente, o motivo para a celebração e festa estarem acontecendo.

 

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Onde encontrar peças GIRL POWER para gordas

17 de abril, por Mariana Rodrigues

Há alguns meses a Helena, do Garotas Rosa Choque contou lá no blog dela a dificuldade que nós gordas tínhamos em achar roupas que exaltassem o feminismo ou o girl power. A verdade é que há algumas estações o feminismo entrou de vez no circuito da moda, só que, para variar, as peças iam no máximo até o 44 ou um GG bem sofrido. Peças exaltando a luta das mulheres, mas, obviamente, com o intuito único de lucrar, e não de fazer uma moda democrática.

Dia desses fui procurar uma t-shirt pra chamar de minha, queria algo com uma mensagem bacana. Meu primeiro pensamento foi entrar no site da Wear Ever, pelas estampas fofas que eu já tinha visto. Busquei as peças 100% algodão e achei não só camisetas, mas também jaquetas e vestidos com dizeres empoderadores e cores diversas.

A moda por si só já é um dos meios de empoderamento, e era super triste ver que, além de visar feminismo apenas como lucro, as varejistas esqueceram completamente que existem recortes dentro do movimento. A Ísis Valverde apareceu no lançamento com uma blusa escrita “We should all be feminists”, em português “Nós todas deveríamos ser feministas”, que custava cerca de dois mil e trezentos reais. Qual é o propósito de uma t-shirt simples com uma mensagem como essa custar essa fortuna? Sem contar que todas nós deveríamos ser feministas, mas, passar a mensagem com aquela camisa, só se você usa tamanho regular – e olhe lá. Então, para você comprar uma peça divulgando e enaltecendo a força da mulher, além de ser rica, tem que ser magra também? E as outras mulheres?

Assim foi com a Renner, com a C&A, com várias outras lojas “de shopping”. Até a Leader, que conta com uma seção Plus Size, no mês passado lançou uma camiseta em homenagem ao dia da mulher. Eu consegui comprar a GG, mas e as mulheres maiores que eu? Perderam uma super chance de unificar todas as seções naquela peça, do infantil ao Plus Size, poxa.

No entanto, fiz uma busca e tenho aqui sugestões de lojas que realmente se importam com empoderamento de minas maiores. Além de mensasgens maravilhosas e preços justos, essas marcas tem peças em modelagens diferentes e tamanhos super generosos. Vem comigo!

A 787 shirts tem peças diversas com mensagens de exaltação às feministas. T-shirts, maiôs e jaquetas fazem parte do catálogo, e, se antes as peças iam até o G4, na última coleção a marca aumentou a grade e agora vai até o G6!

 

Outra queridinha minha, a Wear Ever tem várias peças com várias frases. Algumas fofas, outras mais diretonas, a grade deles é bem ampla. A camisa que eu tô usado na foto de destaque do post é de lá. Pra vocês terem ideia, comprei a EG, mandei apertar e ainda assim ficou grande. Podem se jogar!

Por último, fiz um mix de lojas que estão sempre atentas em fazer peças para minas mostrarem o poder que tem! A jaqueta é da CanCan Store, a T-Shirt cinza é da Oh,Querida! e o maiô é da Chica Bolacha! Todas elas vestem mulheres gordas, algumas até o 60!

E você, tem alguma dessas peças ou quer botar para fora o GRL PWR que existe em você? Me mostra lá nas minhas redes ——> Instagram – FacebookPinterest

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Todos os looks de um fim de semana agitado

10 de abril, por Mariana Rodrigues

Acontece com todo mundo. Em certos finais de semana não tem nada pra fazer, nenhum filme legal passando no cinema, nenhum convite de amigos pra um barzinho, aniversário ou qualquer outro tipo de evento. Em contrapartida, de vez em quando temos aqueles dias em que infelizmente não conseguimos dar conta de todos os eventos, mas fazemos o máximo possível.

Confesso que a primeira situação tem acontecido com muito mais frequência, já que temos evitado grades saídas – faltam menos de seis meses para o casamento e os boletos não param de chegar, rs -, mas esse último fim de semana bombou de eventos, começando na quinta-feira (!!!) e terminando só no domingo. Como tenho trabalhado em casa, não rola aquela produção diária e preciso admitir que tenho total preguiça de me arrumar e maquiar com o único intuito de tirar fotos. Então, quando chega um fim de semana desses cheio de eventos, eu aproveito para caprichar.

Quinta-feira: uma ida ao Centro + happy hour com amigos

Eu estava super ansiosa para estrear esse look. Sou uma grande garimpeira e nunca me restringi em procurar as roupas que eu queria só em lojas de moda Plus Size. Essa saia é da Renner e o tamanho dela é G, ficou a conta certa no meu corpo (alô Renner, não é porque agora temos a Ashua que vocês precisam tirar o GG da grade regular, viu?), e a t-shirt é da Leader, tamanho GG. Fiquei louca pela t-shirt quando vi na campanha, mas achei mancada da Leader – uma das pioneiras entre redes fast fashion a ter coleções Plus Size – só disponibilizá-la até o GG. Era a chance de mostrar que a moda também pode ser #GRLPWR para gordas, poxa! A sapatilha mule é da Renner, foi uma ousadia que eu amei e casou super bem com as outras peças. Usei esse look para ir à uma prova do meu vestido de noiva (!!!) e depois partir para um happy hour com amigos

 

Sábado: Shopping e trabalho

Rolou uma reviravolta na minha programação de fim de semana, e o que era pra ser uma noite de festa, virou uma tarde/noite de trabalho, zanzando pelo shopping. Busquei uma combinação parecida com a que usei na quinta-feira – t-shirt + saia midi -, mas de uma maneira mais básica… era só uma ida ao shopping, haha! Essa saia é super prática e combina com tudo, foi presente da Gudamagoo e a camiseta é super antiga, do tempo em que a C&A tinha um GG em tamanho decente. O mule é o mesmo da primeira foto,

 

Domingo: Passeio e almoço na CADEG

Essa semana eu tenho reunião com a minha decoradora, e ainda não fazia ideia de quais flores vou usar na decoração da festa de casamento. Aproveitei o domingão pra visitar a CADEG aqui no Rio, escolher cores e estilo floral para a festa, além das lembrancinhas, que terão uma pegada natureba também! Escolhi um vestido curtinho e antigo, joguei uma jaqueta jeans por cima e combinei com um sapato de vinil com esse salto mais grosso, que vem fazendo sucesso há algumas temporadas. O look inteiro é da linha regular da Renner (0 vestido é GG e a jaqueta, G).

 

E vocês, o que fizeram nesse fim de semana? Quais os looks escolhidos? Vamos conversar lá nas minhas redes sociais?  —–> Instagram – FacebookPinterest

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Por que não esperar muito de personagens gordas em novelas

2 de abril, por Mariana Rodrigues

Hoje começa mais uma novela das nove (quando eu era criança as novelas eram “das oito”), e teremos a talentosíssima Mariana Xavier no papel de Abigail, uma secretária que deverá enveredar pelo caminho das passarelas da moda Plus Size. Já tive a oportunidade de conversar com a minha xará – conversa que rendeu esse post-, e ela mesma declarou o desejo de viver uma personagem em que não houvesse nenhuma questão ou menção envolvendo seu biotipo físico.

Claro que ficaremos felizes por termos uma atriz fora dos padrões de beleza ocupando espaço no espaço premium da televisão, mas será mesmo que Abigail vai ser uma personagem daquelas que nos representará? Ou sua trama vai girar em torno de seu corpo gordo?

Puxando aqui pela memória, busquei três personagens gordas de novelas globais que foram absurdamente estereotipadas. O final de duas destas personagens foi praticamente o mesmo; de uma delas foi absurdamente ridículo, “em nome do humor”. Vamos lá:

Carola (Fernanda Souza) – O Profeta

A problematização começa quando sabemos que a atriz Fernanda Souza precisou engordar sete quilos para viver Carola, no remake de “O Profeta” em 2006. Ora, não haviam atrizes com o corpo desejado para viver a personagem? Pois bem, Carola era uma professora não-magra que, obviamente era desastrada e não entendia de moda ou beleza. Devido a isso, era motivo de vergonha para os seus pais e vivia mal humorada e sozinha. A trama de Carola é basicamente seu insucesso amoroso e sua tentativa de se tornar uma mulher bonita, ou seja, magra. No fim, a personagem tem um “final feliz”, casando com um rapaz tão desajeitado e tímido quanto ela.

Perséfone (Fabiana Karla) – Amor à vida

Perséfone foi a primeira personagem de destaque de Fabiana Karla em uma novela. Tratava-se de uma enfermeira que tinha a virgindade – ligada ao fato de ser uma mulher gorda e não desejada pelo gênero oposto- como ponto central de sua história. A personagem tinha o clichê da gorda romântica e sonhadora, mas protagonizou cenas de “comédia” (entre aspas mesmo, porque não tinha nenhuma graça) a cada tentativa de perder a virgindade. Perséfone conheceu Daniel, se apaixonou e casou, enfrentando ainda a ira de sua sogra, que não a aceitava pelo simples fato de ser gorda. A personagem ainda tinha uma música esdrúxula como tema – falei dela nesse post aqui. Óbvio que no fim ficou tudo bem e Perséfone foi feliz com seu amado.

Dona Redonda (Vera Holtz) – Saramandaia

De longe a mais ofensiva das personagens. Dona Redonda tinha várias problemáticas, a começar pelo fat suit (não sabe o que é? falei sobre nesse post aqui) usado, para que Vera Holtz ficasse o mais caricata possível. Quase todas as aparições da personagem tiravam sarro de seu tamanho e de sua fome – sim, Dona Redonda comia compulsivamente e isso era tratado como algo engraçado. Além disso, era casada com um personagem bem magro e pequeno, pra dar o tom de comédia no “desequilíbrio” do casal. Dona Redonda teve um fim bizarro: explodiu de tão gorda.

Fica aqui a torcida para que Abigail seja uma personagem que nos surpreenda  e dê um super destaque para a visibilidade de mulheres gordas, e não mais um reprodutor de estereótipos.

 

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