O amor próprio deveria ser a ponta do iceberg na militância gorda

6 de outubro, por Mariana Rodrigues

Depois de um hiato causado pelo combo reforma em casa + mudança + casamento, voltei. Nesse espaço de tempo, aproveitei para ler bastante, além de observar discussões em fóruns diversos. O sentimento que eu tenho é que estamos, com raras exceções, como aqueles cachorros que ficam correndo atrás do próprio rabo. Sem avanços, indo a lugar nenhum.

Pelo menos toda semana em algum grupo eu vejo alguém postar uma selfie ou foto em frente ao espelho. A legenda, na maioria das vezes, fala sobre o quanto é importante se amar e se achar linda (o), mesmo que a sociedade te diga o contrário. Na maioria das vezes, esse discurso vem de pessoas que passam por pressão estética

As discussões acerca da gordofobia nunca foram só sobre isso.

“-Doutor, eu fui empalada!

– Você provavelmente se sentirá melhor se perder peso”

 

Claro que é importante se amar, se admirar. Mas, até aí, o mundo tá cheio de gente padrão que se odeia, que “se vê” de uma maneira completamente distorcida. É importante sim mostrar que existe mulheres além das modelos que tem a autoestima nas alturas. Mas quando falamos de gordofobia, amor próprio é quase a ponta do iceberg. Aceitar o próprio corpo e ver beleza nele muitas vezes é o pontapé inicial para a luta real contra a gordofobia, mas não deve ser nunca o ponto final.

“Se achar feia” não é nada quando existem pessoas que são privadas de seus direitos básicos apenas por serem gordas.

Enquanto a gente discute a foto de fulana que se acha gorda, tem uma pessoa realmente gorda sendo negligenciada nos consultórios médicos, sendo indicada erroneamente para cirurgia bariátrica ou tendo diagnóstico de “obesidade” sem investigar outros pontos da saúde além do peso;

Enquanto a gente comenta “arrasou miga que linda” na selfie de cueca do cara que “quebra padrões”, empregos são negados às pessoas gordas, as deixando cada vez mais à margem da sociedade;

Enquanto as pessoas estão aplaudindo campanha com modelo tamanho 48 por “representatividade”, tem gente com seu direito de ir e vir sendo cerceado ao não conseguir passar na catraca do metrô ou do ônibus.

Precisamos parar de olhar só pra gente ou pra nossa bolha e entender que a luta é pelo coletivo. Infelizmente se achar linda em nada vai fazer com que seu médico te respeite, e mesmo que você use um cropped com sua barriga de fora, as cadeiras de plástico ainda podem continuar quebrando se você sentar nelas. Empoderar uma mulher gorda é muito mais que falar sobre a beleza dela, é mostrá-la que ela deve lutar pelos seus direitos, questionar a sociedade gordofóbica. Vamos evoluir no discurso. Já ganhamos parte da publicidade,  estamos conseguindo notoriedade no campo da moda e da beleza… já passou da hora de entendermos que não é só sobre beleza, e sim sobre direitos!

 

 

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O mito da militante gorda que não tolera o emagrecimento alheio

24 de abril, por Mariana Rodrigues

Quando me assumi como militante gorda, comecei a prestar mais atenção nas coisas que eu falo, principalmente na internet. Qualquer palavra ou frase mal colocada pode causar uma interpretação errônea de quem lê ou ouve, e, se tem uma coisa ruim para quem quer e precisa provar um ponto, é perder credibilidade. Vejo muita gente falando que o ativismo gordo não perdoa, mas essa fala vem sempre antes de se revelar um propósito: o emagrecimento.

Veja bem, emagrecer não é um erro. Tudo bem querer emagrecer, juro. Você é dona do seu corpo, pode fazer o que bem entender com ele. Não está mais se achando linda quando se vê no espelho? Uma pena, mas pode ir fundo. Não consegue arrumar emprego e sucumbiu ao sistema? Justo. Quer entrar na roupa de marca famosinha? Ok. Eu não acredito que estes sejam motivos para desejar enfrentar um processo de emagrecimento – que por muitas vezes é fisicamente e mentalmente doloroso -, e é por isso que eu não emagreço. Mas você pode, se quiser.

Mas nunca é por isso que eu vejo a maioria das mulheres gordas anunciarem que decidiram emagrecer. O motivo é sempre a saúde. Obviamente a mais justificável das razões, mesmo vinda de mulheres que sabem que problemas de saúde têm mais a ver com sedentarismo e má alimentação que com o formato do corpo em si. Tanto que muitos médicos passam remédios para “auxiliar” no processo de emagrecimento.

Para mim, desserviço mesmo dentro da militância é a necessidade de se explicar. Porque sempre -sempre!- a emenda sai pior que o soneto. No afã de não deixar parecer que você está emagrecendo porque quer (e convenhamos, na maioria das vezes essa é a razão), surgem falas gordofóbicas no discurso, e aí, amiga, você realmente tá queimada no rolê. Mas não porque decidiu emagrecer, e sim porque está mentindo ou justificando seu emagrecimento com fundamentos gordofóbicos.

Junto com as milhões de defesas, vem também as fotos de pratos de salada, na frente do espelho na academia, e, claro, os textões atestando as alegrias de emagrecer e ser mais saudável, e daí para as famigeradas fotos de “antes e depois” é um pulo.

Volta e meia bato na tecla de que ninguém tem o direito de opinar sobre o corpo de outra pessoa. Da mesma maneira que não há a necessidade de anunciar que começou um processo de emagrecimento, porque ninguém tem nada a ver com isso. Só é impossível se expor por algo contraditório ao que se prega, e, quando alguém aponta a incoerência no discurso – e é sempre alguém do ativismo -, dizer que a militância não aceita o emagrecimento alheio.

 

 

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Por que não esperar muito de personagens gordas em novelas

2 de abril, por Mariana Rodrigues

Hoje começa mais uma novela das nove (quando eu era criança as novelas eram “das oito”), e teremos a talentosíssima Mariana Xavier no papel de Abigail, uma secretária que deverá enveredar pelo caminho das passarelas da moda Plus Size. Já tive a oportunidade de conversar com a minha xará – conversa que rendeu esse post-, e ela mesma declarou o desejo de viver uma personagem em que não houvesse nenhuma questão ou menção envolvendo seu biotipo físico.

Claro que ficaremos felizes por termos uma atriz fora dos padrões de beleza ocupando espaço no espaço premium da televisão, mas será mesmo que Abigail vai ser uma personagem daquelas que nos representará? Ou sua trama vai girar em torno de seu corpo gordo?

Puxando aqui pela memória, busquei três personagens gordas de novelas globais que foram absurdamente estereotipadas. O final de duas destas personagens foi praticamente o mesmo; de uma delas foi absurdamente ridículo, “em nome do humor”. Vamos lá:

Carola (Fernanda Souza) – O Profeta

A problematização começa quando sabemos que a atriz Fernanda Souza precisou engordar sete quilos para viver Carola, no remake de “O Profeta” em 2006. Ora, não haviam atrizes com o corpo desejado para viver a personagem? Pois bem, Carola era uma professora não-magra que, obviamente era desastrada e não entendia de moda ou beleza. Devido a isso, era motivo de vergonha para os seus pais e vivia mal humorada e sozinha. A trama de Carola é basicamente seu insucesso amoroso e sua tentativa de se tornar uma mulher bonita, ou seja, magra. No fim, a personagem tem um “final feliz”, casando com um rapaz tão desajeitado e tímido quanto ela.

Perséfone (Fabiana Karla) – Amor à vida

Perséfone foi a primeira personagem de destaque de Fabiana Karla em uma novela. Tratava-se de uma enfermeira que tinha a virgindade – ligada ao fato de ser uma mulher gorda e não desejada pelo gênero oposto- como ponto central de sua história. A personagem tinha o clichê da gorda romântica e sonhadora, mas protagonizou cenas de “comédia” (entre aspas mesmo, porque não tinha nenhuma graça) a cada tentativa de perder a virgindade. Perséfone conheceu Daniel, se apaixonou e casou, enfrentando ainda a ira de sua sogra, que não a aceitava pelo simples fato de ser gorda. A personagem ainda tinha uma música esdrúxula como tema – falei dela nesse post aqui. Óbvio que no fim ficou tudo bem e Perséfone foi feliz com seu amado.

Dona Redonda (Vera Holtz) – Saramandaia

De longe a mais ofensiva das personagens. Dona Redonda tinha várias problemáticas, a começar pelo fat suit (não sabe o que é? falei sobre nesse post aqui) usado, para que Vera Holtz ficasse o mais caricata possível. Quase todas as aparições da personagem tiravam sarro de seu tamanho e de sua fome – sim, Dona Redonda comia compulsivamente e isso era tratado como algo engraçado. Além disso, era casada com um personagem bem magro e pequeno, pra dar o tom de comédia no “desequilíbrio” do casal. Dona Redonda teve um fim bizarro: explodiu de tão gorda.

Fica aqui a torcida para que Abigail seja uma personagem que nos surpreenda  e dê um super destaque para a visibilidade de mulheres gordas, e não mais um reprodutor de estereótipos.

 

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A plenitude de Roberta

21 de março, por Mariana Rodrigues

Quem acompanha o Big Brother Brasil já conhece essa menina de trás pra frente. Ou acha que conhece. Roberta Freitas tem 21 anos, e fez parte do reality show mais famoso do Brasil. Salvo engano, foi a primeira mulher gorda a integrar o elenco de BBB, e isso fez com que a expectativa sobre sua participação fosse a mais alta possível, o que acabou nos frustrando bastante com alguns comportamentos da sister dentro da casa.

É verdade, esperávamos muito mais de Roberta. Prometia ser uma mulher sem papas na língua, sem vergonha do que realmente é e divertidíssima – não no sentido de ser a gorda-entretenimento -, mas de ser uma pessoa interessante de acompanharmos, querida. Já na primeira semana deu pra notar uma menina insegura e se anulando para ser aceita no grupinho encabeçado por Mayara, que tinha as piores atitudes dentro da casa. Quando viu que o barco de Mayara estava virando, pulou fora. Mas, ao ver do público, o maior erro de Roberta foi se afastar de Emilly, a mocinha mau caráter que a edição do programa tenta fazer com que a gente engula. Apesar dos aparentes desvios de caráter, o público julga que Emilly merece compreensão, afinal, é só uma menina jovem “em idade de errar”. Roberta, apenas um ano mais velha que Emilly, não é vista da mesma maneira. Por que será? A rejeição de Roberta certamente tem a ver com uma sociedade racista e gordofóbica que fica apenas esperando o primeiro deslize para que possa destilar todo o seu preconceito por minorias.


E como toda participante que é eliminada do programa, ela participou de um super ensaio do Paparazzo. É claro que vai gerar revolta na galera que tá acostumada a ver ensaios de modelos 100% dentro dos padrões de beleza, já li até alguns comentários bem revoltantes. Mas, como diz a sábia, “atura ou surta”. Com dobrinhas e muito corpo à mostra, Roberta está plenamente maravilhosa e linda nesse ensaio. Dêem uma olhada nessas fotos e corram para o Paparazzo, porque a mulher tá pisando!


 

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Fat suit – O que é e porque devemos falar sobre

15 de março, por Mariana Rodrigues

Depois do black face, do yellow face e do red face (quando atores brancos usam truques de maquiagem para interpretar personagens negros, asiáticos e indígenas, tornando outras etnias caricatas), a discussão que vem ganhando voz e provocando debates no âmbito da militância social – principalmente entre os gordos – é a do fat suit.

Explicando resumidamente: Fat suit é o ato de usar roupas com enchimentos, máscaras de látex e técnicas de maquiagem para viver um personagem gordo.

Em ‘O professor aloprado‘, Eddie Murphy usou máscara de látex, roupa com enchimento de espuma e bexigas cheias d’água

A prática não é nova, mas não encontrei nenhum artigo acadêmico sobre a técnica, o que me leva a crer que ainda temos um longo caminho pela frente. Falo aqui única e exclusivamente com a vivência de gorda que tenho. Hoje, com todas as discussões acerca da gordofobia, não deveria passar despercebido o fato de que, para que haja um personagem gordo em um filme, série ou novela, é preciso que um ator magro use uma fantasia. Ora, qual a razão de não buscar um ator gordo?

Na maioria dos filmes em que atores fizeram fizeram uso do fat suit, o personagem era o “gordo pra entreter”: engraçado, desastrado, romanticamente solitário – com exceção de Gwyneth Palthrow em ‘O amor é cego‘, cujo enredo foi uma sucessão de problemáticas -, ou seja, nem a desculpa esfarrapada de que é apenas uma “homenagem” cola nesse caso. É nítida a intenção de ridicularizar o corpo gordo.

Ache os erros ao ver John Travolta fantasiado de mulher gorda em ‘Hairspray

Aqui no Brasil, estamos com o fat suit em pauta Para viver a personagem Leopoldina na próxima novela das 18h, a atriz Letícia Collin fará uso de um macacão com 20kg para ilustrar o ganho de peso em uma determinada passagem de tempo. Provavelmente farão truques de maquiagem para “alargar”o rosto dela também e não ficar tão desproporcional, mas, será que havia mesmo a necessidade de colocar uma roupa para que ela pareça ter engordado?

“Ah, Mari, mas iam fazer o que? Trocar de atrizes só porque em outra fase ela apareceria gorda?”

Depois que a personagem de Drica Morais virou Marjorie Estiano como resultado de uma plástica em “Império”, não acredito que seja difícil a produção buscar uma atriz ao menos com as mesmas características de Leticia Collin que pese 20 quilos a mais.

Já passou da hora de termos personagens gordos vividos por atores gordos, principalmente personagens cuja história tenha enredos além da estrutura corporal. Não adianta ter um programa progressista falando de feminismo enquanto ridiculariza mulheres gordas. Como falei nesse post aqui, é apenas uma falsa sensação de representatividade.  Usar fat suit na caracterização de um personagem é mais uma maneira de esfregar na nossa o quão gordofóbica a grande mídia consegue ser.

A vestimenta usada por Vera Holtz para viver Dona Redonda, em ‘Saramandaia‘, personagem que chegou ao cúmulo de explodir por ser gorda

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