A dor de ser militante antigordofobia em tempos de discurso body positive

19 de dezembro, por Mariana Rodrigues

Nos dois últimos meses, uma coisa tem chamado bastante a minha atenção: como pessoas famosas e também blogueiras de grande alcance tem se apropriado do discurso body positive. O que é ótimo, se paramos para pensar que toda mulher sofre pressão estética – afinal, é de conhecimento geral que nossa sociedade odeia mulheres. Só que o buraco, queridas, é bem mais embaixo.

O que vou falar pode chocar inicialmente e parecer cruel, mas o movimento body positive não tá nem aí para mulheres gordas. É um discurso que fala exclusivamente de autoaceitação, excluindo questões estruturais como falta de acessibilidade, patologização do corpo gordo, negligência médica. O movimento body positive pode não ter sido criado para tal, mas ele, hoje, tem como principal função invisibilizar a fala de mulheres gordas. Toda a discussão sobre um corpo fora dos padrões estéticos resumida à autoestima.

Eu cheguei num ponto, que a cada post, stories ou compartilhamentos “revoltados com o padrão estético feminino” consigo sentir fisicamente minha voz falhando. A sensação que tenho é que perdi a voz para que essas mulheres magras se sintam no direito de falar sobre algo que elas não vivem, só porque “toda mulher tem local de fala no rolê da pressão estética”. Algo no estilo “é uma pena o hospital não dispor de macas para mulheres do seu tamanho, mas você já viu o avanço que foi a Anitta colocar a bunda com celulite pra jogo no clipe?”. Perdoem o linguajar, mas foda-se a bunda da Anitta. Quando a Preta Gil posou nua na capa do primeiro CD dela – toda retocada de Photoshop, é preciso destacar – as pessoas atacaram sem dó. Quando a Thais Carla posou de biquíni, foram incontáveis os comentários de ódio. Vocês não querem ver bunda real com celulite – vocês querem se sentir melhor porque a bunda de uma mulher dita como gostosa também tem celulites.

Só agora elas notaram que a indústria da moda é escrota – e se vestem um manequim a mais que as modelos 34/36, já crêem estarem aptas a falar. Reivindicam o direito de “se sentirem gordas”, embora sempre tenham mulheres explicando (com mais ou menos paciência, rs) que ser gorda não é sobre sentimento, e sim sobre a perda diária de direitos. Pode parecer que eu estou aumentando, mas perdi as contas de quantas vezes tive que explicar o que pessoas gordas passam para que as pessoas entendam que não é sobre brusinha na Cantão. Ainda tenho que lidar com a desonestidade de quem diz que eu não respeito pessoas com distúrbio de imagem.

Eu estou exausta. De explicar, de ter que ser didática, de brigar. Queria ser positiva e acreditar que teremos mulheres gordas no próximo ano ocupando cada vez mais espaços que antes nos eram negados, mas o que eu vejo são mulheres usurpando todo o nosso discurso e a nossa luta simplesmente pelo medo – ou seria a ojeriza? – de dividir o mesmo espaço conosco. Eu queria ser uma dessas mulheres a deixar de lado a fala de “me odiava, agora me amo” e colocar na mesa o que realmente precisa ser discutido, mas não sei se vou ter pique para isso.

“Eu não sou forte o suficiente para lidar com isso tudo sozinha”

Vou aproveitar o recesso de fim de ano e buscar seguir o conselho da Gabriela Moura, nesse texto sobre razões que te fazem adoecer na militância: ‘me proteger, me preservar, e cuidar para que a saúde não seja ainda mais afetada pelas melhores intenções.’

 

 

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